Sem registros de efeitos colaterais graves em mais de 33.000 sessões por Estimulação Transcraniana.

Sem registros de efeitos colaterais graves em mais de 33.000 sessões por Estimulação Transcraniana.

Evidências consolidadas sobre a segurança da Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC, ou tDCS), com base em uma revisão exaustiva de ensaios humanos e modelos animais de dano tecidual. A análise prioriza dados empíricos em detrimento de especulações teóricas. A segurança da ETCC é definida aqui pela ausência de Efeitos Adversos Graves (EAG). As principais conclusões do levantamento são:

  • Fidelidade Clínica: Até o momento, o uso de protocolos convencionais de ETCC (\le 40 min, \le 4 mA, \le 7,2 Coulombs) não produziu nenhum relato de Efeito Adverso Grave ou lesão irreversível em mais de 33.200 sessões documentadas e 1.000 indivíduos submetidos a sessões repetidas.

  • Margem de Segurança: Modelos animais indicam que a lesão cerebral ocorre em densidades de corrente (6,3 a 13 A/m^2) que são mais de uma ordem de magnitude superiores às produzidas pela ETCC convencional em humanos.

  • Populações Vulneráveis: Não há evidências de risco aumentado em crianças, idosos ou pacientes com epilepsia, AVC ou depressão, desde que respeitados os protocolos estabelecidos.

  • Implantes e Defeitos Cranianos: Modelagens computacionais sugerem que a presença de implantes ou falhas ósseas não eleva a densidade de corrente a níveis de risco de lesão tecidual.

Definições e Critérios de Segurança

Definição de ETCC ou TDCS e protocolo

A ETCC ou TDCS é uma técnica não invasiva que utiliza uma forma de onda de corrente contínua (CC) única e sustentada, aplicada via eletrodos cefálicos com um buffer eletrolítico apropriado (gel, pasta ou solução salina).

Métricas de Dose Críticas: | Métrica | Descrição | Limites Convencionais | | :— | :— | :— | | Intensidade | Corrente em regime permanente | 0,1 mA a 4,0 mA | | Duração | Tempo de estimulação (exclui ramp-up/down) | 4 segundos a 40 minutos | | Carga | Intensidade \times Duração | Máximo de 7,2 C | | Densidade de Corrente | Corrente dividida pela área do eletrodo | Variável conforme o eletrodo |

Critérios para Efeito Adverso Grave (EAG)

Um evento é classificado como EAG relacionado à ETCC se for causado ou agravado pela estimulação e resultar em:

  1. Dano irreversível ao tecido cerebral.

  2. Incapacidade ou deficiência persistente.

  3. Hospitalização inesperada ou prolongamento da mesma.

  4. Intervenção médica/cirúrgica para prevenir danos permanentes.

  5. Morte ou risco de vida.

Nota: Irritação cutânea reversível, sensações transitórias (formigamento, coceira) e alterações clínicas temporárias de sintomas não são consideradas EAGs.

Análise de Temas Centrais e Evidências

1. Tradução de Dados de Modelos Animais

O uso de modelos animais permite a avaliação histológica direta do tecido. A revisão consolidou dados de três grupos principais (Liebetanz, Fritsch, Jankord), utilizando estimulação epicraniana em ratos:

  • Limiares de Lesão: A menor densidade de corrente induzida que causou dano histológico detectável foi de 6,3 A/m^2.

  • Escalonamento para Humanos: Ao comparar a anatomia cerebral e campos elétricos, o limiar de dano previsto para humanos seria de, no mínimo, 67 mA (usando a métrica de Jankord), o que é significativamente superior aos 4 mA utilizados na clínica.

  • Conclusão: Os protocolos humanos convencionais operam em níveis ordens de magnitude abaixo dos limiares de lesão tecidual observados em animais.

2. Segurança em Populações Pediátricas e Idosas

  • Crianças: Embora menos de 5% dos estudos sejam pediátricos, dados de aproximadamente 2.800 sessões em 500 sujeitos não mostram EAGs. Modelos computacionais indicam que crianças podem ter densidades de corrente cerebral maiores que adultos para a mesma dose, mas ainda bem abaixo dos limiares de risco.

  • Idosos: Revisão de 40 estudos com mais de 600 idosos (incluindo pacientes com Alzheimer e Parkinson) não revelou eventos adversos inesperados ou graves. A ETCC é bem tolerada nessa população, com efeitos sensoriais semelhantes aos grupos jovens.

3. Considerações sobre Epilepsia e Crises Convulsivas

  • Indução de Crises: Não há relatos de indução de crises por ETCC em indivíduos saudáveis ou epilépticos.

  • Limiar Elétrico: Estudos in vitro mostram que o campo elétrico necessário para gerar atividade epiléptica (>80 V/m) é mais de duas ordens de magnitude superior ao gerado pela ETCC convencional (<1 V/m).

  • Efeito Clínico: A estimulação catódica tem demonstrado potencial antiepiléptico, reduzindo a frequência de descargas interictais em pacientes com epilepsia focal refratária.

4. Pacientes com Acidente Vascular Cerebral (AVC)

  • Tolerabilidade: Estudos em fases agudas, subagudas e crônicas mostram que a ETCC é segura.

  • Defeitos Cranianos: Existe a preocupação teórica de que falhas no crânio possam “afunilar” a corrente. Contudo, modelagens indicam que o aumento local (até 6 vezes) ainda não atinge o limiar de lesão tecidual.

  • Fluxo Sanguíneo: Não há evidências de que a ETCC cause alterações deletérias na perfusão cerebral ou autorregulação vascular, mesmo em pacientes com oclusões de grandes vasos.

5. Transtornos de Humor e Manobra de Polaridade

  • Virada Maníaca (TEM): Casos isolados de indução de mania ou hipomania foram relatados, mas a incidência é baixa (comparável ao tratamento farmacológico) e a causalidade direta com a ETCC é difícil de estabelecer.

  • Segurança Geral: Mais de 4.160 sessões em pacientes deprimidos foram realizadas sem EAGs documentados.

6. Implantes e Uso Doméstico

  • Implantes Metálicos: Embora sejam condutores, a impedância entre o metal e o tecido biológico (condução iônica) limita o fluxo de corrente através de implantes como eletrodos de DBS. Modelos não mostram riscos significativos de superaquecimento ou concentração perigosa de corrente.

  • Uso em Casa: Ensaios controlados com supervisão remota (telemedicina) demonstraram viabilidade e segurança. O risco no uso doméstico está atrelado à falta de adesão ao protocolo e à qualidade do equipamento, e não à técnica em si.

Conclusões sobre a Segurança da Pele

A segurança cutânea é o aspecto mais comum de tolerabilidade.

  • Eritema: Vermelhidão leve é comum e resolve-se após a estimulação.

  • Lesões: Casos raros de lesões cutâneas foram associados a eletrodos mal preparados (esponjas secas) ou design inadequado. A manutenção do buffer eletrolítico e o contato uniforme são essenciais para prevenir queimaduras eletroquímicas.

Considerações Finais

A ETCC, quando aplicada dentro dos parâmetros de dose convencionais e com equipamentos validados, apresenta um perfil de segurança robusto. A ausência de relatos de lesões cerebrais em dezenas de milhares de sessões, aliada à ampla margem de segurança demonstrada por modelos animais e computacionais, sustenta sua classificação como uma técnica de risco mínimo para pesquisa e uso clínico.

Fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27372845/