Esse artigo trás os achados de um estudo neurocientífico que investigou a relação entre padrões eletroencefalográficos (EEG) de repouso e déficits cognitivos em crianças de 7 a 10 anos com sintomas de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). A pesquisa destaca que o TDAH é uma condição heterogênea, na qual diferentes sistemas cerebrais subjacentes resultam em perfis cognitivos distintos.
Os achados mais críticos revelam que:
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Padrões de EEG Específicos: Crianças com TDAH apresentam com maior frequência ondas teta frontais (FTWs) bilateralmente síncronas — indicativas de disfunção fronto-talâmica — e desvios locais no hemisfério direito (RH).
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Correlações Cognitivas: A disfunção fronto-talâmica está fortemente associada a déficits executivos e prejuízos verbais, enquanto desvios no hemisfério direito correlacionam-se a déficits executivos combinados com dificuldades não verbais (visuoespaciais).
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Trajetórias de Desenvolvimento: Crianças com disfunção fronto-talâmica apresentam melhorias significativas em funções executivas e verbais ao passarem da faixa de 7-8 para 9-10 anos. Em contraste, aquelas com desvios no hemisfério direito mostram progresso apenas em funções não verbais, mantendo déficits executivos persistentes.
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Ativação Cortical: Um terceiro padrão, a baixa ativação cortical inespecífica (DA), manifesta-se principalmente em crianças mais novas e está ligada a baixos níveis de energia e lentidão de processamento.
Análise de Temas Principais e Evidências
1. Heterogeneidade Neurofisiológica no TDAH
O estudo fundamenta-se na premissa de que o TDAH não pode ser explicado por um único modelo cerebral (como o pré-fronto-estriatal), mas sim por alterações em diversas redes neurais. Através da análise estrutural do EEG, foram identificados três fatores neurofisiológicos principais associados aos sintomas:
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Sistema Fronto-Talâmico (FTW): Refletido por ondas teta frontais síncronas. Sugere uma imaturidade ou funcionamento não ideal da rede entre o núcleo mediodorsal do tálamo e o córtex pré-frontal.
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Hemisfério Direito (RH): Caracterizado por desvios locais (ondas teta agudas), afetando áreas responsáveis pela atenção sustentada e processamento de informações não verbais.
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Ativação Cortical Inespecífica (DA): Manifestada por ritmos alfa hipersíncronos de alta amplitude (> 120 µV). Relaciona-se a uma baixa excitabilidade cortical ligada à formação reticular do tronco encefálico.
2. Mapeamento de Déficits Cognitivos por Padrão de EEG
Utilizando a abordagem de Luria para a localização dinâmica de funções mentais superiores, o estudo vinculou os padrões de EEG a prejuízos específicos em componentes regulatórios e informacionais.
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Padrão de EEG |
Principais Déficits Cognitivos Associados |
Características Detalhadas |
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Ondas Teta Frontais (FTW) |
Executivo e Verbal |
Dificuldades em programação, regulação, controle e processamento semântico verbal. |
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Desvios Hemisfério Direito (RH) |
Executivo e Não Verbal |
Disfunção executiva (planejamento) e dificuldades pronunciadas em tarefas visuoespaciais e memória visual. |
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Déficit de Ativação (DA) |
Energético e Não Verbal |
Baixo nível de energia, fadiga, lentidão de processamento e dificuldades não verbais leves. |

3. Impacto da Idade no Desenvolvimento Cognitivo
A pesquisa comparou dois grupos etários (7-8 anos e 9-10 anos) para entender como a maturação cerebral influencia a superação dos déficits.
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Desenvolvimento Típico: Crianças sem TDAH mostram melhora significativa principalmente em funções executivas entre os 7 e 10 anos, refletindo a maturação do córtex frontal.
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Grupo FTW (ADHD): Apresentou melhoria progressiva em funções executivas e performance verbal. Embora o gap em relação ao grupo controle diminua, os déficits regulatórios ainda persistem aos 9-10 anos.
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Grupo RH (ADHD): Mostrou progresso em habilidades não verbais, mas a melhora nas funções executivas não foi estatisticamente significativa, sugerindo que desvios no hemisfério direito podem representar um desafio maior para a compensação natural do desenvolvimento.
4. Metodologia e Critérios de Análise
A investigação utilizou uma amostra de 109 crianças com sintomas de TDAH e 51 crianças com desenvolvimento típico (grupo controle).
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Avaliação Comportamental: Utilização da escala ADHD Rating Scale-IV baseada no DSM-IV.
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Avaliação Neuropsicológica: Bateria de 23 testes adaptada de Luria, cobrindo funções executivas (planejamento, controle de impulsos), verbais (articulação, vocabulário), não verbais (percepção espacial, memória visuoespacial) e nível de energia (velocidade, alerta).
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Análise de EEG: Registros em estado de repouso (olhos fechados) com análise visual qualitativa por especialistas para identificar padrões rápidos e complexos de ondas.
Conclusões Principais
O estudo conclui que os déficits de aprendizagem e comportamento em crianças com TDAH são causados por elos fracos em sistemas funcionais cerebrais específicos. A identificação do fator neurofisiológico predominante (via qEEG) é crucial para prever o perfil de dificuldades da criança:
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Disfunções no sistema fronto-talâmico prejudicam a seletividade e o processamento verbal.
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Disfunções no hemisfério direito afetam a organização espacial e a atenção sustentada.
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A baixa ativação cortical é um fator que tende a diminuir com a idade, explicando por que a hiperatividade motora frequentemente reduz-se na adolescência, enquanto os déficits de atenção e execução persistem.
Esta abordagem interdisciplinar permite uma diferenciação mais precisa dos casos de TDAH, oferecendo suporte para intervenções mais direcionadas a cada perfil neurofisiológico.
FONTE: https://psycnet.apa.org/fulltext/2014-56250-005.html
