O Atentah (cloridrato de atomoxetina) representa um marco recente no cenário farmacoterapêutico brasileiro para o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), tendo sido aprovado pela ANVISA em julho de 2023. Diferente dos tratamentos tradicionais de primeira linha, a atomoxetina é um medicamento não estimulante, classificado como inibidor seletivo da recaptação de noradrenalina.
Os principais diferenciais estratégicos do medicamento incluem a ausência de potencial de abuso ou dependência, devido à não elevação de dopamina no sistema límbico, e um perfil de ação prolongada de 24 horas, eliminando o “efeito rebote” comum em psicoestimulantes. Contudo, sua eficácia plena demanda um tempo de latência terapêutica de 4 a 8 semanas. O uso é indicado para pacientes acima de 6 anos, adolescentes e adultos, sendo uma alternativa primária para casos com comorbidades (ansiedade, tiques) ou contraindicações aos estimulantes.

Atentah (Cloridrato de Atomoxetina) no Tratamento do TDAH
1. Perfil Farmacológico e Mecanismo de Ação
A atomoxetina atua de forma distinta dos metilfenidatos e anfetaminas:
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Mecanismo: Inibição seletiva do transportador de noradrenalina pré-sináptica.
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Ação Cortical: Aumenta a noradrenalina nas sinapses e, secundariamente, eleva a dopamina no córtex pré-frontal (onde a noradrenalina regula os receptores dopaminérgicos), sem afetar significativamente o sistema límbico.
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Farmacocinética:
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Absorção rápida (Cmax em 1-2 horas).
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Metabolização principal pela via enzimática CYP2D6.
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Meia-vida de aproximadamente 5 horas em metabolizadores extensivos e até 24 horas em metabolizadores pobres.
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Ligação proteica de 98% (principalmente à albumina).
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2. Indicações e Diferenciais Terapêuticos
O medicamento é indicado para o tratamento do TDAH em pacientes pediátricos (6+ anos), adolescentes e adultos.
Vantagens sobre Estimulantes
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Baixo Risco de Abuso: Por não ser um estimulante, não possui propriedades euforizantes, permitindo a retenção da receita comum (não amarela).
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Duração do Efeito: Estabilidade dos sintomas por 24 horas, sem as flutuações de humor e energia típicas do fim da dose de estimulantes.
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Comorbidades: Demonstrada eficácia e segurança em pacientes com tiques (Síndrome de Tourette) e transtornos de ansiedade concomitantes, sem agravar tais condições.
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Autismo: Estudos apontam eficácia moderada no controle de sintomas de TDAH em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
3. Administração e Posologia
O Atentah é comercializado em cápsulas de 10mg, 18mg, 25mg, 40mg, 60mg e 80mg.
Diretrizes de Dosagem
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Público |
Dose Inicial |
Dose Alvo |
Dose Máxima |
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Crianças/Adolescentes (até 70kg) |
0,5 mg/kg/dia |
1,2 mg/kg/dia |
1,4 mg/kg ou 100 mg |
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Pacientes acima de 70kg e Adultos |
40 mg/dia |
80 mg/dia |
100 mg/dia |
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Ajuste por Tolerabilidade: Aumentos de dose devem ocorrer após um mínimo de 3 dias (agudo) ou 2 a 4 semanas (otimização).
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Populações Especiais:
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Insuficiência Hepática Moderada: Reduzir doses iniciais e alvo para 50%.
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Insuficiência Hepática Grave: Reduzir para 25% da dose normal.
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Metabolizadores Pobres (PM) de CYP2D6: Iniciar com doses menores e progredir apenas se tolerado após 4 semanas.
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⚠️ Nota Importante: As cápsulas não devem ser abertas, trituradas ou mastigadas. A atomoxetina é um irritante ocular; em caso de contato com o conteúdo, lavar imediatamente com água.
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4. Perfil de Segurança e Reações Adversas
Embora seguro, o Atentah apresenta um espectro de efeitos colaterais que podem ser manejados clinicamente.
Reações Muito Comuns (≥10%)
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Pediátricos: Dor abdominal, vômito, náusea, diminuição do apetite, dor de cabeça, sonolência.
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Adultos: Boca seca, náusea, prisão de ventre, perda de apetite, insônia, disfunção erétil, hiperidrose (suor excessivo).
Impactos no Desenvolvimento e Funções Orgânicas
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Crescimento: Observa-se um atraso inicial no ganho de peso e altura nos primeiros 9-12 meses em crianças, tendendo à normalização após 3 anos de tratamento.
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Sistema Urinário: Adultos podem apresentar hesitação ou retenção urinária e disúria.
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Função Sexual: Relatos de diminuição da libido, orgasmo anormal, ejaculação retardada e, raramente, priapismo (emergência médica).
5. Advertências e Contraindicações Críticas
O monitoramento rigoroso é essencial devido a riscos específicos identificados em bula e estudos pós-comercialização.
Contraindicações Absolutas
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Uso de Inibidores da Monoamino Oxidase (IMAO) nos últimos 14 dias.
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Glaucoma de ângulo estreito.
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Feocromocitoma (atual ou histórico).
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Doenças cardiovasculares ou cerebrovasculares graves.
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Hipertireoidismo não controlado.
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Síndrome do QT longo congênita.
Riscos Sistêmicos
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Tendência Suicida: Risco aumentado de pensamento suicida (0,4%) em crianças e adolescentes, especialmente no primeiro mês de tratamento ou mudanças de dose.
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Lesão Hepática: Casos raros, mas graves, incluindo insuficiência hepática e necessidade de transplante. Descontinuar se houver icterícia ou enzimas hepáticas >20x o limite superior.
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Eventos Cardiovasculares: Pode causar aumento da frequência cardíaca e pressão arterial. Morte súbita foi relatada em pacientes com anomalias cardíacas estruturais pré-existentes.
6. Interações Medicamentosas Significativas
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Classe de Medicamento |
Efeito da Interação |
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Inibidores da CYP2D6 (Fluoxetina, Paroxetina, Quinidina) |
Aumentam a concentração de atomoxetina no sangue em até 6-8 vezes (exposição similar a metabolizadores pobres). |
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Albuterol/Agonistas Beta-2 |
Potencialização da ação cardiovascular (aumento de FC e PA). |
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Agentes Pressores/Anti-hipertensivos |
Risco de descontrole da pressão arterial. |
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IMAOs |
Risco de reações fatais, hipertermia extrema e síndrome neuroléptica maligna. |
7. Contexto Histórico e Científico
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Origem: Desenvolvida na década de 80 originalmente para depressão (contemporânea à Fluoxetina), mas redirecionada para o TDAH após resultados superiores nesta área.
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Eficácia Comparativa: Embora os estimulantes sejam considerados ligeiramente mais eficazes em termos de “tamanho de efeito” imediato, a atomoxetina é superior para pacientes que sofrem com os efeitos colaterais de ansiedade ou insônia dos estimulantes.
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Evidência: Eficácia estabelecida em mais de sete estudos randomizados duplo-cegos controlados por placebo, abrangendo fases agudas e de manutenção.