
O Fenômeno do “Dreno Comportamental” e as Experimentos de John B. Calhoun O Experimento universo 25
O Universo 25 foi experimento comportamental realizado na década de 1970. Ele criou um “paraíso” para roedores com ilimitados recursos sendo eles como, comida, água, abrigo, segurança livre de predadores. O intuito do projeto era testar e verificar sobre os efeitos da superpopulação e do conforto extremo na sociedade e seus sintomas sociais. O projeto, que começou com apenas quatro casais, terminou em um colapso populacional e social total onde demonstrou que certas direções que uma sociedade toma pode destruila e torna-la inapta para convivência.
Os dados e as conclusões são extraídos das pesquisas de John B. Calhoun (1917–1995) foi um etólogo (Etólogo, é um especialista que estuda o comportamento animal (incluindo o humano) em seu ambiente natural ou sob condições controladas )e pesquisador comportamental americano do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH) foi o responsável pelo experimento, mostraram sobre o comportamento social de roedores em condições de alta densidade populacional, com foco nos conceitos de “dreno comportamental” e no experimento “Universo 25”.
Introdução.
As pesquisas conduzidas por John B. Calhoun entre as décadas de 1940 e 1970 revelaram que ambientes projetados para serem “utópicos”, com recursos abundantes e ausência de predadores, invariavelmente levam ao colapso social e à extinção quando a densidade populacional ultrapassa limites críticos. O ponto central dessas descobertas é o “Dreno Comportamental” (Behavioral Sink), um fenômeno de agregação patológica onde os indivíduos se tornam condicionados a buscar a presença constante de outros, resultando em “união patológica”. As consequências incluem a interrupção de comportamentos biológicos essenciais, como cuidados maternos e reprodução, o surgimento de agressividade extrema e o surgimento de grupos sociais desviantes, culminando na “morte do espírito” da sociedade antes da extinção física da população.
Sobre o Conceito de “Dreno Comportamental” (Behavioral Sink)
O termo foi formulado para descrever o desenvolvimento de agregações patológicas em populações de ratos da Noruega (Rattus norvegicus).
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Definição: Um estado de agregação indevida e sustentada que surge de condições e processos que culminam em uma recorrência maior que a casual de indivíduos na vizinhança de uma “Situação de Resposta Positiva” (PRS) específica.
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Mecanismo de Desenvolvimento:
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PRS (Situação de Resposta Positiva): Locais estacionários onde o indivíduo recebe uma recompensa (comida, água, ninho).
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Condicionamento Social: Quando muitos animais estão presentes, um rato frequentemente encontra outro ao buscar uma recompensa. Esse outro animal passa a servir como um reforçador secundário.
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Redefinição da Necessidade: Com o tempo, o animal redefine a situação de resposta como exigindo a presença de outros. Isso cria a necessidade de estar próximo a outros indivíduos para realizar funções básicas, como comer.
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Alpha PRS: Uma área específica (geralmente o funil de alimentação) torna-se o foco central de todas as atividades, enquanto outras áreas idênticas do ambiente são ignoradas.
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Dinâmica do Ambiente e Organização Social
Os experimentos utilizaram ambientes controlados divididos em compartimentos (currais) conectados por rampas, criando uma comunicação linear (Currais I, II, III e IV).
Fatores de Influência na Residência
O uso dos compartimentos não era uniforme devido a dois fatores principais:
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Configuração Linear: Os compartimentos centrais (II e III) recebiam mais tráfego pois podiam ser acessados de duas direções, ao contrário dos compartimentos nas extremidades.
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Fator “Renda”: Buracos localizados em alturas diferentes exigiam esforços variados. Ratos em compartimentos com buracos mais baixos gastavam menos energia para acessar comida e água.
Diferenciação de Áreas
No auge do experimento, os compartimentos foram classificados em três categorias:
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Currais de Criação (Brood Pens): Geralmente dominados por machos territoriais com haréns de fêmeas; apresentavam menores densidades de adultos e maior sucesso na sobrevivência de filhotes.
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Principais Currais de Alimentação: Áreas onde a maioria dos adultos se concentrava para comer, independentemente de onde residiam.
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Outros Currais: Áreas com características intermediárias.
Patologias Comportamentais Observadas
A transição do comportamento normal para o patológico foi gradual, atingindo o clímax conforme a população crescia e os papéis sociais se tornavam escassos.
Tabela: Comparativo de Comportamentos (Normal vs. Patológico)
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Comportamento |
Manifestação Normal |
Manifestação no “Dreno Comportamental” |
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Construção de Ninhos |
Ninhos profundos, em forma de taça, bem tecidos com tiras de papel. |
Fitas de papel deixadas em pilhas; ninhos planos e mal formados ou ausentes. |
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Cuidado Materno |
Transporte ininterrupto da ninhada completa para locais seguros. |
Transporte interrompido; filhotes abandonados no chão e deixados para morrer. |
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Comportamento Sexual |
Cortejo elaborado e seleção de parceiros receptivos. |
Pansexualidade: machos montam em outros machos, jovens ou fêmeas não receptivas. |
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Agressividade |
Conflitos territoriais breves com ferimentos leves na cauda ou dorso. |
Mordida de cauda: ataques severos e aleatórios que resultam em mutilação ou perda da cauda. |
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Alimentação |
Atividade intermitente e distribuída. |
Concentração extrema em um único local, ignorando superfícies de alimentação vazias. |
Grupos Sociais Desviantes em camundongos (Universo 25)
No experimento de 1972 com camundongos, Calhoun identificou grupos específicos conforme a sociedade colapsava:
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“Os Bonitos” (The Beautiful Ones): Machos que nunca lutavam ou buscavam sexo. Passavam o tempo apenas comendo, dormindo e se limpando. Possuíam pelagem impecável, mas haviam perdido a capacidade de desempenhar papéis sociais.
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Fêmeas Reclusas: Fêmeas que se retiravam para caixas de ninho isoladas em níveis superiores, evitando contato social.
Impacto na Reprodução e Mortalidade
O dreno comportamental gerou efeitos biológicos severos, especialmente nas fêmeas e nos jovens.
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Mortalidade Feminina: Em junho de 1959, a população de ratos era predominantemente masculina. Fêmeas morriam devido a complicações na gravidez e no parto.
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Patologias Reprodutivas: Foram observadas hemorragias uterinas, morte de fetos antes do termo, rupturas uterinas e infecções graves (endometrite e miometrite).
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Sobrevivência dos Filhotes: No auge do dreno, apenas 1/4 dos filhotes nascidos sobrevivia ao desmame. Filhotes nascidos fora dos “currais de criação” tinham chances 12,75 vezes menores de sobreviver.
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Doença do Nanismo (Runt Disease): Filhotes apresentavam crescimento retardado e emaciação, possivelmente devido à interrupção da amamentação ou incompatibilidades histológicas causadas por hemorragias placentárias.
Dados de Mortalidade de Ratos (Até Junho de 1959)
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Geração (Tier) |
Idade (Meses) |
Proporção de Machos Mortos |
Proporção de Fêmeas Mortas |
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1ª Geração |
15.5 |
0.187 |
0.582 |
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2ª Geração |
12.0 |
0.104 |
0.562 |
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3ª Geração |
9.5 |
0.061 |
0.125 |
Conclusões e Teoria das “Duas Mortes”
Calhoun concluiu que o dreno comportamental surge da incapacidade do sistema social de fornecer papéis significativos para todos os indivíduos quando a população excede a capacidade de organização.
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A Primeira Morte: É a morte do espírito e da organização social. Ocorre quando os indivíduos perdem a capacidade de realizar comportamentos complexos necessários para a sobrevivência da espécie (cortejo, cuidado materno, defesa territorial).
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A Segunda Morte: É a morte física dos indivíduos e a extinção da população. No experimento Universo 25, a última concepção ocorreu no dia 920, e a população foi extinta pouco tempo depois, apesar da abundância contínua de recursos físicos.
Modelo Teórico de Interação Social
Calhoun propôs que a interação social gera um estado “refratário” de inatenção. Se a densidade for muito alta, indivíduos em estado responsivo são forçados a interagir com indivíduos em estado refratário, gerando uma redução na “saciedade social” (quantidade theta). Para compensar, os animais reduzem a duração de cada comportamento para aumentar a frequência de interações, o que torna os comportamentos fragmentados e ineficazes.
Observações Adicionais
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Vitamina A: Foram encontrados níveis extremamente altos de Vitamina A no fígado dos ratos (45.000 a 60.000 I.U., comparado a 1.000 I.U. em ratos normais). Calhoun sugeriu que estressores sociais poderiam reduzir a tolerância à toxicidade da Vitamina A, embora os dados não fossem conclusivos.
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Perspectiva Evolutiva: Calhoun especulou que o dreno comportamental poderia ser um mecanismo de seleção natural, favorecendo genótipos capazes de tolerar associações densas, o que levaria à evolução de espécies do tipo “rebanho”, onde a fisiologia depende de interações frequentes com outros.